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sábado, 23 de outubro de 2010

“Quem diria que uma gordinha poderia ser considerada linda e sexy?”

Sucesso nas passarelas do Brasil e do mundo, a brasileira Fluvia Lacerda, 29 anos, é considerada a “Gisele Bündchen tamanho plus size”. Com 1,72m de altura e manequim 48, a modelo com medidas fora dos padrões de beleza se recusa a subir na balança para não criar paranoias na cabeça.
Descoberta por acaso nos Estados Unidos há 11 anos, Fluvia pegou gosto pela carreira e hoje se considera “linda e sexy”. Para manter o corpo de modelo, ela pratica exercícios físicos diariamente e nunca fez nenhuma cirurgia plástica.
Confiante, Fluvia acredita que o corpo perfeito existe. “O corpo ideal é aquele com o qual você se sente bem e feliz”, diz. Atualmente, a modelo está em Nova York e concedeu entrevista para o Rudge Ramos Online por e-mail. Leia a seguir a entrevista na íntegra.
Rudge Ramos Online: É difícil encontrar grifes destinadas para mulheres mais cheinhas?Fluvia Lacerda: Aqui, nos Estados Unidos, podemos escolher vários estilos, cores, texturas e tudo de muito bom gosto. Nada daquelas roupas apertadas que marcam tudo ou aquelas muito largas que parecem ter sido feitas para a medida da nossa avó. A descoberta do mundo fashion foi e ainda é uma aventura. Para ter uma idéia, há alguns meses fui fotografar em Barcelona, Espanha, para uma grande campanha de moda e fui surpreendida por um mercado que não conhecia. ‘Las Gorditas’ espanholas não somente são celebradas, mas são poderosas, estilosas e sofisticadas. As lojas oferecem infinitas opções que atende o gosto até das cheinhas mais exigentes, como eu. Fiquei tonta com tantas possibilidades e combinações. Era um sonho! No Brasil, infelizmente, ainda me deparo com o sufoco que as gordinhas passam para encontrar o que vestir, e não digo algo sofisticado, até mesmo para aquela calça e blusinha básicas. Encontrar roupas elas até encontram! Mas quem quer se vestir com um saco de tecido, sem formato, sem estilo e mal feito, que anuncia em alto e bom tom que desenhou aquilo não estava disposto a perder cinco minutos com boas idéias? Acho que desde que iniciei meu trabalho no Brasil as coisas já mudaram bastante, consigo ver um grande avanço. Mas ainda há muito para crescer. E pode ter certeza que esse é um dos meus objetivos no meu País: fazer com que os empresários vejam as oportunidades do mercado “plus size” e que as consumidoras não tenham que se descabelar para encontrar um look legal.
RRO: Quando você começou a carreira de modelo?FL: Um dia, estava dentro de um ônibus atravessando Manhattan quando fui abordada por uma americana, que me questionou sobre a possibilidade de trabalhar como modelo. Na hora, achei que era uma piada e cheguei até a procurar por uma câmera escondida, afinal, como eu, uma mulher acima do peso (no Brasil, meu manequim é 48), poderia ser considerada “material” ideal para o mundo da moda? A tal mulher era editora de uma revista de moda. Ela me deu o seu cartão e me direcionou para uma agência de modelos, dando uma explicação rápida de como funcionava esse mercado “plus size”, isto é, exclusivo para as gordinhas. Eu não fazia ideia de que existia algo assim e, principalmente, que se tratava de um negócio lucrativo e de grande sucesso. Alguns dias depois, após longos debates com a minha família, tomei coragem e fui conhecer a tal agência. O que tinha a perder? Saí de lá com o contrato e depois disso, sim, minha vida mudou completamente. Minha na carreira tem sido um conto de fadas! Quem diria que uma gordinha poderia ser considerada linda e sexy? Eu mesma seria a primeira pessoa a não acreditar em tal idéia, especialmente considerando os padrões de beleza da minha terra natal, aliás, no Brasil, isso seria até cômico. Para ter uma ideia, quando volto para visitar familiares e amigos e conto a eles sobre o meu trabalho, o sucesso, as viagens, a correria, todos me olham da forma estranha. Acho que pensam: Fluvia, modelo? Aí mostro o meu book e, de repente, percebo o ar de espanto dando espaço para a admiração. E todos ficam realizados ao verem que uma gordinha, de fato, pode ser fotografada de forma bonita e sexy. Mas isso está longe de ser a parte mais gratificante do meu trabalho.
RRO: Como conquistou espaço como modelo profissional?
FL: As coisas foram acontecendo naturalmente. Depois que assinei contrato com a Elite, os trabalhos vieram e não parei mais.RRO: Sempre teve essa boa relação com o espelho ou já tentou se enquadrar no padrão de magreza?
FL: É engraçado dizer, mas eu já nasci com uma autoconfiança nata. Sou objetiva e lógica quanto a esse aspecto da minha vida. Acredito que as pessoas vão pensar o que quiser não importa o quanto você se esforce pra se encaixar num molde, que muitas vezes não é seu por natureza. Sempre vão existir críticas: se você é muito alto precisa ser mais baixo, se tem cabelos vermelhos deveriam ser loiros, se ele é cacheado precisaria ser liso, se é muito baixinha não pode ser perfeita, a muito magra é feia, a cheinha vive afogada em paranóias e sonhando com uma pílula mágica para ficar magra. E nessa loucura em se transformar ou adequar a esse molde que a sociedade te empurra goela abaixo, as pessoas esquecem de viver, de se amar e de se darem a chance de se conhecerem melhor para, quem sabe, gostarem de si mesmos e de suas imperfeições. Vivemos preocupados com o que o mundo pensa da gente. Mas infelizmente o tempo não para e enquanto muitos perdem tempo buscando ser alguém que os outros aceitem, acabam por se esquecer de buscar a própria felicidade. Então, eu fiz a escolha de não me encaixar nessa prisão mental. Eu tenho meus dias ruins, dia de espinha no meio da testa, dia de cabelo que não obedece, dia que o mau humor está a mil. E diante de qual for esse quadro, mantenho em mente que sou linda e me sinto dessa forma, de dentro pra fora. Me cuido, sou vaidosa, adoro me vestir bem, amo meus quadris largos, minhas pernas fortes e meu cabelo de leoa. Foi assim que Deus me fez. Portanto, não vejo razão para me torturar em busca de ser algo determinado por outras pessoas. Você tem que ser a sua prioridade número um. Jamais terei quadris de no máximo 90 centímetros e com certeza a minha felicidade não depende disso. RRO: Já fez alguma cirurgia?FL: Nunca fiz nenhum tipo de tratamento cosmético. Adoro malhar, freqüento a academia e ando de bicicleta, que é meu meio de transporte em Nova York. São meus tratamentos de beleza favoritos. Pra falar a verdade estou bem contente com o que Deus me deu. Exercitar meu corpo pra manter a saúde e manter um ritual de exercícios constantes, pra mim é o mais importante.
RRO: Costuma praticar exercícios físicos?FL: Malho muito porque eu gosto da sensação, da energia e da disposição. A diferença é que não vou à academia pensando nos quilos que vou perder ou nas calorias que estou queimando e olha que me forço a ir à academia todos os dias. Meu ritual inclui andar de bike, o meu meio de transporte diário, e reforço com sessões de spinning na academia (45 min), para fortalecer os músculos. Duas vezes na semana faço aulas de ginástica localizada, também com o objetivo de manter tudo durinho. Eu malho para manter meu coração e meu corpo saudáveis, para esvaziar a mente e pelo prazer de estar lá me curtindo. Quando termina, me sinto muito bem comigo mesma.
RRO: Como é sua alimentação?FL: Ser gordinho não quer dizer sair comendo tudo o que vê pela frente. Tenho a genética para ser mais cheinha e não luto contra isso. Nunca fiz dieta, mas também não vivo comendo besteiras tampouco tenho uma vida sedentária. No entanto, se quero comer um chocolate ou um prato com arroz e feijão, por exemplo, não me nego a esse prazer de forma alguma. Não como frituras, ou massas feitas com farinha branca. Consumo alimentos integrais. Não bebo refrigerantes e não como comidas processadas. Me preocupo mais com a química adicionada nas comidas hoje em dia do que com as calorias.
RRO: Você sofre ou já sofreu algum tipo de preconceito por ser gordinha? Acha que existe preconceito com mulheres mais cheinhas?FL: Ah sim. Dentro da minha própria família mesmo. Grande parte da nossa sociedade ainda está condicionada a se uniformizar ao que a mídia dita ser ou não bonito e atraente. Mas aos poucos isso vem se modificando, as pessoas vêm aceitando as diversidades de belezas. RRO: O que você acha do padrão de beleza estabelecido que exige que as mulheres sejam muito magras.FL: Acho que qualquer extremo não é saudável ou atraente. Magreza esquelética ou obesidade não são nem saudáveis nem bonitos.
RRO: Existe o corpo perfeito?FL: Claro que existe. O corpo perfeito é aquele com o qual você se sente bem e feliz. No fundo, o que importa é a imagem que você vê refletida no espelho e se você está feliz com ela.

Um comentário:

Ellen Bini disse...

MUITO LEGAL..
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BJUS